Direitos autorais crescem 1,4% no Brasil, abaixo da América Latina
País arrecada € 238,8 milhões e fica atrás do México, enquanto receitas mundiais alcançam recorde de € 15,5 bilhões
Por Zé Elias Mendes6 nov 2026 · 6 min de leitura

A arrecadação de direitos autorais no Brasil cresceu 1,4% em 2025, segundo levantamento do Cultz com dados do Global Collections Report 2026, publicado pela Confederação Internacional de Sociedades de Autores e Compositores (CISAC) em 4 de novembro.
As sociedades de gestão coletiva do país arrecadaram € 238,8 milhões, enquanto a América Latina e o Caribe registraram crescimento de 9,8%, para € 847 milhões. O avanço regional foi sete vezes maior que o brasileiro.
A diferença também aparece na comparação com o México, que liderou a arrecadação latino-americana com € 255,2 milhões, alta de 9,4%.
Os valores são apresentados em euros pela CISAC, utilizando taxas de câmbio médias anuais. Por isso, as variações não devem ser interpretadas automaticamente como crescimento real, em moeda local, do mercado brasileiro.
Brasil cresce menos que México e Argentina
O relatório posiciona o Brasil como o segundo maior mercado latino-americano de arrecadação de direitos autorais.
| País | Arrecadação em 2025 | Variação anual |
|---|---|---|
| México | € 255,2 milhões | +9,4% |
| Brasil | € 238,8 milhões | +1,4% |
| Argentina | € 152,5 milhões | +35,3% |
Fonte: levantamento Cultz sobre as tabelas nacionais do Global Collections Report 2026, da CISAC.

A diferença entre México e Brasil chegou a € 16,4 milhões.
A Argentina apresentou o maior crescimento relativo entre os três países, com alta de 35,3%. Segundo a CISAC, o mercado argentino respondeu por mais da metade do crescimento regional no período.
Juntos, México, Brasil e Argentina arrecadaram aproximadamente € 647 milhões, equivalentes a 76,4% do total da América Latina e do Caribe.
O Brasil respondeu sozinho por cerca de 28,2% da arrecadação regional.
Em dez anos, México avançou muito mais que Brasil
A diferença entre os dois maiores mercados também aparece na evolução de longo prazo.
Entre 2016 e 2025, a arrecadação mexicana aumentou 319,7%, segundo os dados da CISAC analisados pelo Cultz.
No Brasil, o crescimento acumulado foi de 31,3%.
Isso significa que o valor registrado pelo México mais que quadruplicou ao longo do período, enquanto a arrecadação brasileira aumentou aproximadamente um terço.
A média da América Latina e do Caribe avançou 72,7% na mesma comparação.
Os números demonstram uma expansão desigual da arrecadação regional, mas não permitem concluir, isoladamente, que o consumo de obras protegidas ou a produção cultural brasileira tenham crescido menos.
Diferenças cambiais, critérios de arrecadação, acordos de licenciamento e condições de gestão coletiva também influenciam os resultados.
Música representa quase toda a arrecadação brasileira
O Brasil aparece na 14ª posição mundial em arrecadação de direitos autorais, considerando os cinco repertórios analisados pela CISAC: música, audiovisual, artes visuais, literatura e teatro.
No repertório musical, ocupa a 13ª posição, com € 238,2 milhões.
O valor representa aproximadamente 99,7% da arrecadação brasileira total registrada no relatório.
A concentração evidencia o peso da música na gestão coletiva de direitos no país.
Isso não significa que as demais atividades culturais brasileiras gerem apenas 0,3% de toda a receita com direitos autorais. O levantamento considera os valores reportados pelas sociedades integrantes da rede da CISAC, e a cobertura dos diferentes repertórios varia entre mercados.
Shows e música ambiente sustentam crescimento
Entre os resultados positivos do Brasil está a arrecadação ligada a apresentações ao vivo e execução de música em ambientes públicos.
Essa categoria reúne shows, festivais e a utilização de músicas em estabelecimentos como restaurantes, hotéis, academias e lojas.
Segundo a CISAC, a arrecadação brasileira nessa modalidade cresceu 7,3% em 2025, impulsionada também por eventos populares como Carnaval e festas juninas.
O país permaneceu como o maior mercado latino-americano nessa fonte de arrecadação.
Em contrapartida, as receitas brasileiras provenientes de televisão e rádio recuaram 3% quando expressas em euros.
O relatório ressalta a influência das variações cambiais sobre os resultados nacionais, um cuidado necessário para não atribuir toda a queda a mudanças de consumo ou distribuição.
Digital lidera arrecadação na América Latina
No conjunto da América Latina e do Caribe, o digital se consolidou como a maior fonte de royalties para criadores.
A categoria arrecadou € 360 milhões em 2025, crescimento de 10,3%, e representou aproximadamente 42,5% do total regional.
Desde 2016, a arrecadação digital latino-americana cresceu 943,1%, segundo o relatório.
O México lidera esse segmento na região, com € 180,9 milhões em 2025.
A receita regional com shows e música ambiente também aumentou, chegando a € 294 milhões, alta de 15,8%. Dentro dessa categoria, a arrecadação associada especificamente a concertos cresceu 28%.
Já televisão e rádio ficaram praticamente estáveis, com € 181 milhões e avanço de apenas 0,1%.
O contraste mostra como diferentes fontes de remuneração vêm alterando a composição da arrecadação de direitos autorais na região.
Mundo registra recorde de € 15,5 bilhões
Globalmente, as sociedades integrantes da CISAC arrecadaram € 15,5 bilhões em direitos autorais em 2025, crescimento de 11,3%.
O resultado abrange informações de 228 sociedades em 111 países e territórios.
Entretanto, parte relevante do avanço decorreu de uma mudança na base de dados: o relatório incorporou pela primeira vez valores da entidade americana The Mechanical Licensing Collective (MLC).
De acordo com a CISAC, essa inclusão respondeu por aproximadamente 52% do crescimento anual. Excluindo os dados da MLC, a expansão global foi de 5,3%.
O digital tornou-se a maior fonte de arrecadação no mundo, com € 6,57 bilhões, equivalente a 42,4% do total.
As receitas de apresentações ao vivo e música ambiente alcançaram € 3,87 bilhões e ultrapassaram as de televisão e rádio, que ficaram em € 3,82 bilhões.
O que explica a distância brasileira?
Os números indicam que o Brasil permanece entre os maiores mercados de arrecadação de direitos autorais, mas registrou crescimento relativamente baixo em 2025 e na comparação com 2016.
O relatório não permite atribuir essa diferença a uma única causa.
A variação cambial afeta os valores apresentados em euros. Além disso, a arrecadação depende de acordos de licenciamento, eficiência na cobrança, categorias de utilização de obras e cobertura das sociedades participantes.
Também é necessário distinguir arrecadação de distribuição: os valores recolhidos pelas entidades de gestão coletiva não equivalem automaticamente aos pagamentos líquidos efetivamente recebidos pelos autores.
O dado central do levantamento é que, enquanto a América Latina registrou expansão de 9,8% em 2025, o Brasil avançou apenas 1,4%, mantendo-se como segundo maior mercado da região.
A diferença oferece um ponto de partida para investigar como a arrecadação brasileira está evoluindo entre o digital, os eventos ao vivo e os meios tradicionais.
Metodologia
O Cultz analisou as tabelas do Global Collections Report 2026, publicado pela CISAC em 4 de novembro de 2026, com informações referentes ao ano civil de 2025.
A comparação considera receitas de direitos autorais arrecadadas por sociedades de gestão coletiva nos repertórios de música, audiovisual, artes visuais, literatura e teatro.
Os valores são apresentados em euros, conforme a conversão utilizada pela CISAC. As comparações de crescimento utilizam os indicadores publicados no relatório.
Os cálculos de participação regional e diferenças entre países foram realizados pelo Cultz a partir das tabelas da entidade.
O levantamento não mede diretamente a receita total da indústria musical, a bilheteria de shows ou os rendimentos líquidos individuais dos criadores.
Fontes: CISAC — Global Collections Report 2026; CISAC — Comunicado oficial de 4/11/2026.


