Spotify estuda cobrar até US$ 5 extras por remixes com IA
Ferramenta pode estrear no início de 2027; artistas terão de autorizar o uso de suas músicas, mesmo com acordos das gravadoras
Por Redação3 nov 2026 · 8 min de leitura

O Spotify estuda cobrar uma mensalidade adicional de US$ 4 a US$ 5 para permitir que assinantes criem covers e remixes de músicas com inteligência artificial. Segundo reportagem do Financial Times publicada em 30 de outubro, a plataforma trabalha com a possibilidade de lançar a ferramenta no primeiro trimestre de 2027, mas ainda não definiu o preço nem a data.
O serviço seria oferecido como um complemento pago à assinatura Premium, permitindo modificar músicas de artistas que autorizarem sua participação. Entre os exemplos apresentados estão transformar uma canção folk em uma faixa dançante ou criar uma versão que soe como se outro artista estivesse interpretando a composição.
A iniciativa faz parte da estratégia do Spotify para desenvolver novas fontes de receita a partir de sua base de assinantes. O projeto já possui acordos de licenciamento com Universal Music Group, Merlin, Kobalt e Believe, mas ainda depende da adesão individual dos artistas.
Quanto custaria a ferramenta de remixes com IA?
De acordo com pessoas familiarizadas com os planos ouvidas pelo Financial Times, o Spotify considera cobrar entre US$ 4 e US$ 5 mensais pela ferramenta.
O valor seria acrescentado à mensalidade já paga pelos usuários do Spotify Premium.
A empresa ainda não anunciou um preço oficial, tampouco confirmou se a cobrança será a mesma em todos os mercados.
Também não foram divulgadas informações sobre disponibilidade no Brasil ou possíveis valores em reais.
O Spotify teria como objetivo apresentar o produto durante o primeiro trimestre de 2027. Uma das possibilidades discutidas é aproveitar a proximidade da 69ª edição do Grammy, marcada para 7 de fevereiro.
O calendário, entretanto, ainda pode mudar.
Procurada pelo jornal britânico, a companhia não comentou as informações.
Como funcionariam os remixes e covers com inteligência artificial?
A ferramenta permitiria que usuários do Spotify Premium criassem novas versões de músicas licenciadas utilizando IA generativa.
Diferentemente de serviços que produzem composições inéditas a partir de comandos de texto, o produto partiria de gravações e obras já existentes no catálogo da plataforma.
O usuário poderia, por exemplo, modificar o estilo musical de uma faixa ou experimentar uma interpretação que lembrasse outro artista.
Essas possibilidades dependeriam da autorização dos titulares dos direitos envolvidos.
O Spotify pretende permitir que remixes criados pelos fãs sejam disponibilizados em playlists. Segundo a apuração do Financial Times, as reproduções dessas versões também poderiam contribuir para os números das faixas originais nos rankings internos da plataforma.
Ainda não foram detalhadas as regras de distribuição, os limites das modificações permitidas nem a maneira como cada versão seria identificada para os ouvintes.
Também não está confirmado se as criações poderão ser baixadas, compartilhadas fora do Spotify ou utilizadas comercialmente.
Artistas precisam autorizar o uso das músicas
Uma das características centrais do projeto é a participação voluntária dos artistas.
Mesmo quando uma gravadora ou editora musical estabelece um acordo com o Spotify, os profissionais envolvidos precisam autorizar a utilização de suas obras na ferramenta.
Isso significa que a assinatura de contratos com grandes empresas da indústria não libera automaticamente seus catálogos completos para a criação de remixes.
O modelo pretende oferecer aos titulares de direitos controle sobre quais gravações e composições podem ser modificadas.
Segundo o Financial Times, a Universal Music Group e o Spotify já vêm realizando reuniões com artistas para apresentar a iniciativa.
A adesão, porém, não tem sido uniforme.
Fontes ouvidas pelo jornal afirmaram que artistas contemporâneos de grande sucesso têm apresentado mais resistência do que alguns nomes com carreiras consolidadas há mais tempo.
Um exemplo de oposição pública à utilização de IA na música é Olivia Rodrigo, que declarou recentemente não querer empregar a tecnologia em suas próprias gravações.
A declaração não foi uma resposta específica ao serviço do Spotify, mas ilustra o debate que envolve a participação dos artistas em produtos de inteligência artificial.
Spotify já fechou acordos com quatro empresas
O desenvolvimento da ferramenta ganhou força ao longo de 2026, com uma sequência de acordos comerciais.
A Universal Music Group foi a primeira parceira anunciada, em 21 de maio, durante um encontro do Spotify com investidores em Nova York.
Em 4 de agosto, a plataforma firmou contrato com a Merlin, organização que representa gravadoras e distribuidoras independentes.
No dia 13 do mesmo mês, anunciou um acordo com a editora musical Kobalt.
A parceria mais recente foi divulgada em 20 de outubro, com a Believe, que também opera a plataforma de distribuição musical TuneCore.
O contrato permite a participação de artistas e selos vinculados às duas operações, desde que autorizem sua inclusão na ferramenta.
O Spotify ainda negocia acordos específicos para o produto com Sony Music Group e Warner Music Group.
Embora essas companhias participem de discussões mais amplas sobre produtos musicais com IA, não haviam anunciado até o fim de outubro contratos equivalentes para a ferramenta de remixes.
Lançamento não depende de todas as grandes gravadoras
A ausência de acordos com Sony e Warner não necessariamente impedirá o lançamento.
Durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre, em agosto, o co-CEO do Spotify, Gustav Söderström, afirmou que a empresa não precisa concluir contratos com todas as grandes gravadoras antes de disponibilizar a ferramenta.
A estratégia permite começar com um catálogo limitado a artistas e detentores de direitos que aceitarem participar.
O executivo também afirmou que o Spotify pretende ampliar a quantidade de artistas disponíveis, mas não espera contar com todos eles desde o início.
Essa decisão tem consequências para a experiência dos usuários.
Diferentemente do catálogo tradicional de streaming, no qual o assinante encontra músicas licenciadas para reprodução, a ferramenta de IA poderá oferecer apenas uma seleção de faixas autorizadas para transformação.
Ainda não existe uma relação pública dos artistas e das músicas que estarão disponíveis.
Como os artistas receberiam pelos remixes?
O modelo comercial prevê remuneração aos titulares de direitos das músicas originais.
Segundo informações divulgadas pelo Spotify e pela Believe em outubro, os remixes e covers produzidos na ferramenta deverão gerar royalties quando forem reproduzidos.
Esses pagamentos se destinariam aos artistas e demais titulares de direitos associados às obras e gravações utilizadas.
A intenção é criar uma fonte adicional de receita a partir de versões produzidas pelos fãs, em vez de permitir que essas adaptações circulem sem autorização ou remuneração.
No acordo com a Believe e a TuneCore, a participação exige duas etapas de consentimento.
Primeiro, o artista decide se deseja ser considerado para iniciativas relacionadas à inteligência artificial. Depois, recebe a oportunidade de aceitar ou recusar especificamente a participação no projeto do Spotify.
O modelo procura estabelecer uma diferença em relação à circulação não autorizada de remixes, covers e conteúdos gerados por IA em outras plataformas.
Ainda não foram divulgados os percentuais de royalties, a divisão das receitas da assinatura adicional ou os critérios para remuneração de composições com múltiplos autores e titulares de direitos.
Spotify quer ampliar receitas além da assinatura Premium
A ferramenta integra uma estratégia de desenvolvimento de novos produtos pagos destinados principalmente aos assinantes mais engajados.
No terceiro trimestre de 2026, o Spotify registrou receita de € 4,969 bilhões, crescimento de 16% em relação ao mesmo período do ano anterior.
A base de assinantes Premium chegou a 306 milhões de pessoas no fim de setembro, avanço anual de 9%.
O serviço também alcançou 788 milhões de usuários ativos mensais, incluindo consumidores dos planos gratuitos e pagos.
Os números demonstram a dimensão da base potencial para a oferta de recursos adicionais.
Segundo o Financial Times, o analista Ian Moore, da Bernstein, estima que entre 7% e 8% dos assinantes do Spotify nos Estados Unidos poderão aderir à ferramenta até o fim de 2028.
A projeção representa uma estimativa de mercado, não uma meta divulgada pelo Spotify.
Também não há informações suficientes para calcular a receita futura do produto, porque o preço, o número de participantes e os custos de licenciamento ainda não foram definidos publicamente.
O desafio de transformar IA em um produto musical licenciado
A iniciativa coloca o Spotify em uma posição diferente daquela de plataformas voltadas à geração de músicas inteiramente novas.
Seu projeto parte de obras existentes e busca envolver gravadoras, editoras, artistas e compositores em um modelo formal de autorização e remuneração.
A proposta também pretende responder a uma situação já observada na internet: fãs produzem remixes e versões modificadas de músicas, muitas vezes sem autorização dos titulares de direitos.
Ao incorporar essa atividade ao próprio serviço, o Spotify tenta transformar uma prática criativa em um produto comercial.
A estratégia, entretanto, depende de duas decisões independentes.
A primeira é a dos artistas, que precisam aceitar a utilização de suas músicas por ferramentas de IA. A segunda é a dos consumidores, que terão de avaliar se vale a pena pagar uma mensalidade adicional para produzir versões de um catálogo potencialmente limitado.
Por enquanto, o Spotify possui acordos de licenciamento, uma proposta de produto e uma possível janela de lançamento. O preço final, o catálogo de estreia, as regras de utilização e a adesão dos usuários continuam em aberto.
Fontes: Financial Times — Spotify aims to launch AI music remix service early next year; Music Business Worldwide — Spotify plans Q1 2027 launch for AI covers and remixes tool; Spotify — acordo de remixes e covers com Believe; Spotify — resultados do terceiro trimestre de 2026.


